BRITISH GQ: “DUA LIPA SOBRE ‘FUTURE NOSTALGIA’, REJEITAR A STAN CULTURE E O PODER DAS MULHERES”
- Dua Lipa: Portugal
- 10 de mai. de 2020
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O sucesso de 2017 de Dua Lipa, New Rules, foi um manifesto para mulheres e relacionamentos. Agora, com o seu segundo álbum, Future Nostalgia, os êxitos ainda são para mulheres, só que desta vez ela e os seus co-compositores assumiram a indústria fonográfica… e venceram.
Dua Lipa descobriu como iria salvar a música pop enquanto caminhava, sozinha, por Las Vegas. Na esquina de faux-New York e faux-Paris, inspirada pelos Outkast e Gwen Stefani, ela concebeu o nome para o seu segundo álbum: Future Nostalgia.
"Enviei uma mensagem para o meu A&R, 'acho que tenho o nome para o meu álbum'", ela recorda. "Ele disse: 'Depois de me dizeres isso, e se o teu coração está firme da decisão, não podemos contar a ninguém. É como se fosse o nome de um bebé." Assim que ela disse Future Nostalgia – uma referência a impulsionar a sua sonoridade para a frente, além de uma homenagem ao electropop dos anos 2000 e ao R&B com que ela cresceu – estava decidido. Deu foco às músicas, deu foco a Lipa e deu um propósito ao álbum. "Eu quero que este seja o álbum que jovens raparigas recordem da mesma maneira que eu recordo o Missundaztood da Pink ou o The Dutchess da Fergie," ela diz. "Eu quero que seja uma banda-sonora para jovens raparigas quando elas crescerem. Eu quero que [o álbum] envelheça bem."
O foco claramente resultou. Já há muito tempo que o lançamento de um álbum não era tão forte desde o início. Quando o primeiro single, Don't Start Now, saiu em novembro de 2019, tornou-se a banda-sonora perfeita para todos os anúncios de TV, aulas de SoulCycle e pista de dança em casamentos. Em seguida, a faixa-título: um banger estranho e sexy que se parece mais com Automatic das The Pointer Sisters do que qualquer coisa no Top 40. Depois, algumas semanas antes de nos conhecermos, ela lançou Physical, um bop que fez absolutamente tudo o que a velha Lipa não fez: tratava-se de amor e não de desgosto, com um vídeo cheio de coreografia intensa e a escuridão esquisita de Moroder que faz a música parecer uma jóia esquecida de Flashdance.
O seu quarto, Break My Heart - "o meu especial", ela chama - apresenta uma sample dos INXS. "Isto é música para 'chorar e dançar'", ela diz com uma risada, usando o seu termo para o que os outros podem chamar de um banger triste. "Veio de um lugar muito bom: aquela coisa de sentir muito feliz." Depois de se tornar famosa por ser a mulher que aponta o dedo a todos os seus ex-namorados horríveis, Lipa tornou-se numa otimista. "Eu descrevi o álbum como uma aula de dança. Estás sempre a dançar. Não há praticamente baladas. "Há algumas músicas mid-tempo que deixam-me recuperar o fôlego quando estiver em tour… mas tenho sido um pouco implacável com este álbum."
"Também não achei que o meu álbum fizesse o que fez", admite Lipa. Emily Warren, a co-compositora de algumas das músicas, credita o sucesso das mesmas, em parte, por serem músicas sobre separações de mulheres para outras mulheres. "As mulheres estão a cantar o que os homens pensam que elas querem dizer", diz Warren, "ao invés do que eles querem". O sucesso de New Rules - uma música sobre companheirismo entre mulheres ao nível de Lisístrata [comédia grega de Aristófanes], lançada no meio do movimento #MeToo - mudou tudo isso. "As pessoas interessam-se por aquilo que dizes", continuou Warren, "porque elas precisam de ouvir o que estás a dize, porque essa é a música que as pessoas querem ouvir".
Foi por isso que o primeiro álbum de Lipa ficou conhecido: pelas músicas que falam da catarse de superar os relacionamentos antigos, o fator fundamental da música disco, mesmo que ela estivesse mais influenciada pelo R&B do que por Donna Summer.
Mas o som de Future Nostalgia - que mistura Janet Jackson, com os Moloko e muito mais - "é uma melhor representação minha do que o meu primeiro disco", diz Lipa, enquanto desloco-me com ela por Londres entre compromissos em março, é apenas um exemplo do quão ocupada ela está atualmente.
"Eu pensei que o meu primeiro álbum fosse assim comigo…" No entanto, com Future Nostalgia, ela diz, o nome deu à coisa toda uma visão mais singular. "Desta vez, eu estou a descobrir-me de verdade."
Nascida no noroeste de Londres, filha de pais do Kosovo, mudou-se para Pristina, a capital do país, pelo trabalho do seu pai quando tinha onze anos. Três anos depois, pediu para voltar para Londres: queria ter aulas na Sylvia Young Theatre School aos fins-de-semana. Ela convenceu-os dizendo que precisava de notas Excelentes para ingressar numa universidade britânica. De volta ao Reino Unido, ela começou um blog, tentou ser atriz e modelo, networking pela cidade e enviar demos. Ela assinou um contrato em 2013 com os agentes de Lana Del Rey, Ben Mawson e Ed Millett, e depois um contrato com a gravadora em 2015. "Ela assinou com a Warner Bros parcialmente porque eles não tinham uma grande artista pop feminina e precisavam de uma". Millett disse em 2018. "Eles queriam-na muito, então ela teve a atenção da equipa desde o primeiro dia." É uma história de ambição esclarecida. "Se tu te afirmares e souberes exatamente o que queres, as pessoas vão-te chamar de cabra”, Lipa diz-me com um encolher de ombros. "Mas não podes permitir que as palavras de outras pessoas afetem o teu crescimento."
Enquanto New Rules tornou-se viral pelas razões certas, algumas das suas performances ao vivo encontraram uma vida após a morte menos agradável online. Uma performance de 2018 da sua colaboração com Calvin Harris, One Kiss, em particular, tornou-se num meme devido à sua coreografia embaraçosa: a apresentação acabou por ser tornar numa espécie de atalho para qualquer momento em que alguém é convidado a dançar ou mover-se com relutância e foi até parodiado por drag queens – um sinal claro de que tu entraste no léxico cultural.
Lipa sabe o que a internet achou dessa performance. Ela até retweetou as piadas. No entanto, isso não significa que não tenha sido doloroso. "Depois de tornares grande o suficiente, toda a gente quer ver se tu aguentas. E com razão" - diz ela, nunca mais firme do que quando se discute o preço do sucesso. "Mas, ao mesmo tempo, eu estava a aprende; Eu estava no começo da minha carreira. E então eu senti que era bastante injusto quando comecei a receber um certo ódio por algumas coisas - o que estava a fazer, como eram as minhas performances, como eram as minhas coreografias, como era o meu canto - e senti-me como se estiva a ser dissecada de tantos ângulos da minha vida."
Como Lipa gostaria de ressaltar, há muito que se espera que as mulheres da pop sejam atletas tanto quanto cantoras, um critério que os homens raramente preenchem. "Eu lembro-me de ir a um concerto do…" Lipa faz uma pausa para não nomear nomes, um sorriso irónico, mas educado, "…um artista masculino que realmente não faz nada no palco. E eles receberam uma excelente avaliação de cinco estrelas. E depois, temos mulheres que sobem ao palco e estão praticamente a fazer piruetas, mudanças de roupa - é um espetáculo. E depois, [os revisores] detalham cada pormenor." Mas enquanto Lipa está mais do que ciente dos padrões aplicados às mulheres e músicos de comunidades marginalizadas, ela também não é alguém para se afundar em auto-piedade.
"Parecia quase um mito poder fazer tudo no palco", diz Lipa, rindo. "Eu pensava: 'Pelo menos se eu poder cantar a minha música muito bem, nada mais importa.' Mas eu acho que agora cheguei a um acordo com o facto de que deve ser tudo ou nada. Isso deixou-me muito mais forte." Lipa percebeu que não poderia lançar um álbum e não dar-nos visuais e performances ao mesmo tempo, então praticou. E muito. "Estive num estúdio de dança com Charm La'Donna, a minha coreógrafa em Los Angeles, durante duas semanas, a fazer a coreografia repetidamente até eu saber todos os passos enquanto dormia."
O trabalho valeu a pena. Um ano depois da sua performance memorável de One Kiss, Lipa apresentou Don't Start Now ao vivo nos MTV Europe Music Awards de 2019. Em três minutos, ela provou que aprendeu a comandar um palco, com uma coreografia confiante, vocais fortes e uma encenação minimalista, dirigida pela incrível Es Devlin (que também concebeu o palco da The Monster Ball Tour de Lady Gaga e a The Formation Tour de Beyoncé). "Os EMAs", diz ela, "foram a primeira vez que senti que posso fazer isto."
A performance não estabeleceu apenas a sua visão artística: desde a direção e coreografia ao treinamento vocal e maquilhagem, tudo foi dirigido por mulheres, algo pelo qual Lipa é extremamente apaixonadamente.
Sem problemas de denunciar desigualdades - durante seu discurso de aceitação de Melhor Artista Revelação nos Grammys de 2019, ela chamou à atenção o então presidente da Recording Academy Neil Portnow por sugerir anteriormente que as mulheres precisavam de "melhorarem" se quisessem ser reconhecidas por prêmios - Lipa agora está comprometida em colocar mais mulheres em papéis na música da qual elas normalmente estavam ausentes.
"Existe um problema enorme - que talvez começa nas escolas - em que as raparigas não são necessariamente incentivadas a tocar instrumentos mais masculinos, não são realmente incentivadas a entrar em produção, enquanto os homens naturalmente seguem esse caminho". A produção e a engenharia são extremamente dominadas por homens: numa pesquisa de 2016 da Audio Engineering Society, apenas sete por cento dos seus membros foram identificados como mulheres. Outros grupos, como a Women’s Audio Mission, sugerem que esse número é menor.
Quando pergunto a Lipa quantas mulheres estão nos créditos do Future Nostalgia, há uma pausa definitiva. "Não há produtoras femininas no registo, o que, tu sabes… espero que, no futuro, eu consiga trabalhar com mais delas. Sinceramente não conheço muitas. E eu realmente gostava, porque eu adoraria sentar-me ao lado e aprimorar um som com uma mulher."
Lipa adora os homens com quem trabalha - "Eu não teria conseguido essas músicas sem eles" - mas isso não significa que ela não aprecie a energia de ter outras mulheres na sala. "Nunca esquecerei quando comecei a ir ao estúdio. Eu tinha apenas 17 anos. Entrei em salas que eram predominantemente do sexo masculino, ou muito mais velhos que eu, e quando estava a compor, inicialmente, não me abria tanto quanto queria ou não expressava o que queria escrever porque sentia que essas pessoas faziam isso há mais tempo do que eu."
Mas as mulheres que trabalharam no seu primeiro álbum ajudaram-na bastante a encontrar a sua voz: pessoas como Emily Warren e Caroline Ailin, que co-escreveram New Rules, ou Sarah Hudson, que co-criaram Genesis. "Elas ajudaram-me bastante a entrar em mim e a escrever coisas que vêm do coração", diz Lipa. "Os meus amigos muito, muito próximos são todas raparigas. Eu sempre sinto que é mais fácil conversar com raparigas e sou mais aberta com a energia feminina. Talvez se as mulheres em geral tivessem um pouco mais disso nos estúdios, não seria tão intimidador para começar."
Lipa merece mais créditos do que se deu quando falámos: há duas produtoras (Lauren D´Elia e Lorna Blackwood) no álbum e um número considerável de co-compositoras ao lado de Lipa em nove das onze faixas da Future Nostalgia.
Chelcee Grimes compôs o primeiro álbum de Lipa e também o Future Nostalgia (ela é uma co-compositora na faixa Love Again), tendo-a conhecido após o primeiro contrato de gravação de Lipa. No primeiro álbum, ela escreveu várias músicas, incluindo Kiss And Make Up, que foi deixada de fora da lista de faixas do lançamento original. Grimes adorou, lançou para outras pessoas - Demi Lovato, Britney Spears, Miley Cyrus - mas ela diz: "Elas achavam que a letra era muito jovem". Então, um ano e meio depois, o pessoal de Lipa retomou os trabalhos na música. Desta vez como uma colaboração com a sensação do K-pop Blackpink - agora com mais de 300 milhões de streams no Spotify. "Para [Lipa] foi um registro importante, porque éramos apenas eu e ela e, depois, trouxemos as raparigas da Blackpink", diz Grimes. "Dua é tudo para elas."
Músicas pop subestimadas, mas bem-sucedidas para mulheres têm o hábito de seguir Lipa. New Rules, a música que mudou o seu álbum homónimo de uma boa estreia para um sucesso mundial, foi gravada muito antes de se tornar o seu primeiro #1 do Reino Unido. A co-compositora Warren sente que a música rasgou as páginas do livro de regras sobre aquilo que era esperado pelas mulheres na música pop. "Quando eu fui contratada e mudei-me para Los Angeles, eu estava a trabalhar com um compositor experiente e ele disse-me que sempre que escreves uma letra, deves de certificar que o homem não pense que não vai entender," ela diz, suspirando. "New Rules foi um momento tão bom para todas nós: é o contrário."
Grimes diz que muitas vezes não são apenas os homens que podem dificultar a vida das mulheres na indústria. "Ouvi a managers ou agentes dizerem: 'Ah, ela não gosta de trabalhar com raparigas'", ela diz-me. "Conheço as principais compositoras responsáveis pelas maiores músicas do ano que não usam maquilhagem porque os artistas podem sentir-se ameaçados. Às vezes, são as raparigas que nos fazem 'diluir'." Lipa, diz Grimes, cria uma energia muito diferente. "Ela é sobre proximidade e união de tudo. Eu tenho muito respeito pela Dua."
Lauren D´Elia, uma das únicas duas produtoras no álbum, foi contratada para ajudar a fornecer um som muito específico à faixa do álbum Hallucinate. Ela pensa ter sido escolhida por causa do seu trabalho com KAYTRANADA e por produzir as performances vocais das suas colaboradoras. D’Elia diz que, quando artistas femininas entram na sala, geralmente ela é a primeira produtora vocal feminina com quem trabalharam. "Não quero falar pela Dua, mas ouvi de outras artistas que existe um certo conforto em ver uma mulher na minha posição", explicou. "Gravar vocais é algo muito íntima. Um artista mostra o seu lado imperfeito – trata-se de tudo antes de uma música se tornar perfeita. Sendo mulher, uma mulher jovem, existe uma muro que cai imediatamente."
Estaria certo em colocar esse peso nela, deveria perguntar aos seus colaboradores, ou essa pergunta deveria ser direcionada à gravadora, aos agentes ou a qualquer outra pessoa, em vez de uma mulher a trabalhar no seu segundo álbum num setor extremamente difícil?
"Eu acho que é provavelmente um pouco dos dois", diz a compositora de Pretty Please, Julia Michaels. "O artista está nos olhos do público. Eles são um modelo a sehuir para muitas pessoas e querem dar esse exemplo. Cabe à gravadora concordar em fazer essas coisas". Ali Tamposi – que ajudou na composição de Break My Heart - argumenta que é precisa de ser algo em recair sob as gravadoras e a sua administração: "Os artistas têm o seu foco, o lado performativo, por isso eu não acho que haja uma consciencialização de que as compositoras femininas estão em ascensão."
Não há dúvidas ao ouvir o Future Nostalgia que Lipa é uma estrela pop que encontrou exatamente a artista que ela quer ser - do jeito que ela quer se apresentar, a música que ela quer fazer, a cultura que ela quer cultivar - em parte porque ela decidiu retirar-se do Twitter e da stan culture (o inconstante amor e ódio das mulheres na música pop). "Eu precisava de criar um álbum do qual realmente me orgulhasse, sem a opinião das outras pessoas," diz. "Se eu permanecesse online e tentasse seguir as instruções da stan culture, provavelmente estaria a tentar refazer as New Rules vezes e vezes sem conta."
A resposta ao seu novo som foi colossal. Os que duvidavam perceberam que Lipa é a estrela pop que ela sabe que pode ser. "Mesmo depois de ganhar o Grammy de Melhor Artista Revelação, acho que toda a gente estava à espera que eu falhasse. Mas, como eu disse, eu acho que é aqui que eu devo estar."
Lipa sempre foi vendida como uma estrela pop profundamente ambiciosa, que não tem medo de mostrar o quanto ela quer isto. Mas "isto" claramente evoluiu, amadureceu e foi refinado. "Sinto que cresci tanto como pessoa. O Future Nostalgia abriu uma porta para mim mentalmente que me ajudou a entender o que eu quero". Basta vê-la ao vivo para perceber que isso não é apenas ar quente. Estamos a ver evolução de um talento pop realmente bom.
Isso faz parte do charme da Lipa da era Future Nostalgia. Ninguém pode duvidar agora que ela merece o seu sucesso, porque a sua ambição ajudou a fazer algo tão divertido, sexy e inegavelmente ela. "Às vezes, as pessoas pensavam: 'Ah, sabes, talvez não estás pronta para isto'. E eu pensava: 'Eu sei que nasci para fazer isto. E eu sei que estou exatamente onde devo estar". Nessas palavras, há uma determinação de adamantium [metal raro e fictício, quase indestrutível] nos olhos de Lipa, o olhar de uma mulher que encontrou o seu som e não tem planos de deixá-lo ir. "Tudo isso foi apenas parte da minha aprendizagem."
TRADUÇÃO E ADAPTAÇÃO: DUA LIPA: PORTUGAL
VIA: BRITISH GQ



















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